sábado, 27 de outubro de 2012

Conhecendo Mia Couto

Nunca tinha lido Mia Couto. O conhecia por amigos e algumas frases de twitter. Ah! Acho que passei por ele em algum momento da graduação, quando assisti o documentário: Língua – Vidas em Português. 

Sei que não posso dizer que agora o conheço apenas por ter lido um livro dele, porém posso dizer que estou apaixonada! E quando estamos apaixonados perdemos o juízo e acabamos achando o normal, o bonitinho e o comum uma “absurdeza” de maravilhoso. Só que dessa vez acho que me apaixonei por um autor incrível, acima da média. 

O livro lido foi: O fio das missangas. Um livro com 29 contos, recheado de fantasias, lindas histórias, belas imagens e palavras divertidas. 

Recomendo! E deixo uma frase twitável:
 “A missanga todos a vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: fio de silêncio costurando o tempo”.


@roseguedes

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Gustavo Lima e você


Uau, tanto tempo que não passo por aqui...Hoje o Matutando escolheu Gustavo Lima e você. Texto de um amigo que quando escreve sempre me leva a matutar. Espero que à você também!

Boa matutada!



Gustavo Lima e você

O Brasil é a sexta maior economia do mundo. Nós ultrapassamos o Reino Unido. Nosso PIB é de US$ 2,48 trilhões, enquanto o do Reino Unido é de US$ 2, 26 trilhões.

Algumas pessoas receberam essa notícia, no fim de 2011, com entusiasmo. Quando o banco alemão WestLB noticiou o ranking das maiores economias do mundo, muitos brasileiros abriram sorriso de orelha a orelha. Contudo, eu não. Recebi a notícia com desconfiança e lamento.

Na minha opinião, Weber acertou quando teorizou sobre a autonomia das esferas da realidade. Economia e política são esferas distintas e autônomas, e aqui está a razão do meu lamento. Enquanto a esfera econômica brasileira ascende, a política se desgasta e degrada sistematicamente.

O Brasil tem uma das piores distribuições de renda do mundo. Para mostrar a gravidade em detalhes, alguns dados: segundo o mais recente relatório sobre Desenvolvimento Humano divulgado pela ONU, o Brasil é o décimo pior entre os cento e vinte e seis países considerados para a realização do relatório. Nós temos a terceira pior distribuição de rendas da região latino americana e caribenha. Piores que nós, apenas a Bolívia e o Haiti.

É de corar as bochechas de qualquer pessoa de bom senso, afinal, estamos falando da sexta maior economia do mundo!

Distribuição de renda é problema político. De que adianta uma economia em ascensão e uma política desse nível? Poderia escrever sobre vários outros problemas políticos do Brasil, mas não considero necessário para o meu argumento, uma vez que a má distribuição de renda está intimamente ligada com a pobreza e a fome – e não há problemas políticos mais relevantes.

O Brasil atual enriquece, mas apenas o bolso dos que já eram ricos. A distribuição de renda brasileira é a denúncia de que o pobre continua pobre, quando não mais pobre do que era. O acesso das classes mais baixas à linhas de crédito, que permitem adesão de bens de consumo, é apenas uma cortina de fumaça para distrair a massa do real problema político brasileiro.

Mas essa cortina de fumaça não tem razões econômicas apenas. Há ainda outros que ajudam a mantê-la, para parecer que está tudo bem: Michel Teló, Gustavo Lima e tantos outros milhões de imbecis que cantam “me dá um tchu, me dá um tchá”. Nesse esquema idiota e idiotizante, tipo pão e circo, os brasileiros vão festejando sua própria miséria política e humana.

O que acontece com os brasileiros? O que aconteceu com aqueles que lutaram contra a ditadura militar? O que aconteceu com aqueles que lutaram pelo voto direto? Que tipo de apatia se abateu sobre esse povo que já derrubou sistemas políticos perversos? O Brasil tem um dos piores índices de corrupção política do mundo!

Jesus disse que as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja, mas só disse isso porque não conhecia a igreja evangélica brasileira. Se conhecesse, teria hesitado. Os evangélicos seguem emudecidos diante da injustiça social que testemunham. Em terras tupiniquins as portas o inferno prevaleceram em forma de silêncio, descaso e insensibilidade contra a igreja que se diz de Jesus.

Os evangélicos confundem as coisas, acham que quando a Bíblia diz que Deus criou todas as coisas, era sobre o Cachoeira que ela estava falando! Essa leitura literal da Bíblia sempre atrapalhando tudo...

O Brasil é uma vergonha política. E o nosso povo dá de ombros para isso, inventando alguma nova coreografia ridícula que envolve bunda e rebolado ... Nossa, nossa, assim você me mata. Nos mata.

Lidero, junto com mais alguns amigos, um pequeno grupo de jovens numa igreja evangélica chamada Betesda. Desde o começo do ano, os líderes desse grupo acharam relevante discutir política em nossas reuniões, pois além de ser ano eleitoral, é necessário dar início ao debate político entre jovens, ainda mais os que estão dentro de uma igreja. A ideia ganhou o nome de Política JB (Jovens Betesda). Reservamos um sábado por mês para esse programa. Desejávamos que o debate inflamasse o grupo e o colocasse em movimento político de engajamento social... Mas não aconteceu. Dos sessenta jovens que frequentam normalmente nossas reuniões semanais, menos de trinta aparecem no Politica JB, provavelmente por considerarem irrelevante discutir política, ainda mais dentro da igreja. O que é isso, senão um retrato fiel da mentalidade política brasileira?

Na América Latina, nosso país só ganha da Bolívia e do Haiti em justa distribuição de renda, e tem uma cambada de brasileiros descerebrados que acham que política não é importante!

Minha indignação é tanta, que já tive vontade de desistir algumas vezes. Mas graças aos meus bons amigos politizados continuo – alguns dentro do grupo de jovens que lidero, organizando doações de sangue; outros fora da igreja, lutando por movimentos de reforma política. Eles ainda me inflamam e me colocam em movimento.

Existe uma expectativa que até 2015 o Brasil se torne a quinta maior economia do mundo, ultrapassando a França – onde crianças de pais ricos e pobres frequentam as mesmas escolas, enquanto no Brasil, a educação pública está entre as piores do mundo...

Intitulei o texto de “Gustavo Lima e você” para que as pessoas lessem. Se eu colocasse algo como “política e economia no cenário brasileiro” meu e-mail iria direto para a lixeira da maioria. Desculpe se não é o seu caso, não quis te nivelar por baixo... Foi uma atitude desesperada.


Lucas Lujan

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Transformação

Todo dia é um recomeço
Todo dia é um renascimento
Não que tudo que é vivo nasce e morre no mesmo dia
Entretanto, tudo que é vivo muda a cada dia
E se muda passou ser outra coisa
Uma coisa que não era ontem

Ontem éramos calmos ou bravos
Hoje o que você é?
Não me diga que continua o mesmo!
Ou você insiste em ser o mesmo?
Tudo bem, você tem esse direito
Só não venha me dizer que é tudo assim
Você nem parou para perceber

Perceber é um mistério
Parar é proibido
Ai mora o perigo
De continuar sempre tendo
“aquela velha opinião formada sobre tudo”


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Família - O casamento de Rachel


Muita gente fala que relações familiares são complicadas. Eu não escolho essa palavra, por carregar um significado piegas que só é complicada por nossa causa, por exemplo, a gente que complica, era para ser tudo simples, mas a gente que não consegue se afastar dos problemas. Simples assim? Receio que não.

Uma possibilidade é, conforme a vida vai acontecendo e no mundo que nos foi exposto, e nesse caso cada um tem seu mundo, isso gera uma complexidade. Tá bom, palavras da mesma família, mas que se distanciam. Igual aos membros de uma mesma família.

Para explicar melhor - e se você já me entendeu me desculpe e continue lendo please - existem vários sabores de vinho, e cada um tem sua complexidade. E isto foi acontecendo conforme o processo de preparação que o vinho foi submetido, o tipo de uva, a época do ano, o tempo de engarrafamento e etc.

Então, as famílias não são complicadas e sim tem suas complexidades. Logo as pessoas não são complicadas, mas tem suas complexidades.

Enfim, escrevi tudo isso para dizer o quanto achei interessante o filme "O casamento de Rachel" ou "Rachel getting married”.








@roseguedes

sábado, 31 de dezembro de 2011

Montoeira


O ano acabou
Minha retrospectiva é triste e alegre
Igual a mim
Sou triste e alegre
Tenho uma queda pelo drama
Mas não largo a alegria

Na leveza do esforço amei quem deveria ser amado
Abri mão de quem não queria ser amado
Presenciei meu fracasso
Brindei minha vitória
Iniciei projetos eternos
Finalizei etapas

Palavras duras ainda ressoam nos meus ouvidos
Quero expulsa-las para não machucar mais
Quero mantê-las para aprender mais

Olhares iluminaram meus dias
E de novo as palavras, mas dessa vez doces, curaram
Toques, mesmo tão poucos, estão tatuados eternamente

Sons de crianças, adolescentes, famílias, músicas, amigos
Livros, medos, artes, erros, acertos, tentativas, doces e amores
Escutei todos os dias
Triste e alegre essa foi minha melodia

Fui fraca e logo rude
Fui forte e logo boa
Não lutei pelo o que acredito
Não segui o meu sonho
Calei-me, paralisei
Não o bastante inventei outro sonho
E uma nova maneira de acreditar no que acredito

E essa montoeira de coisa chamada 2011 foi boa?
Repito, foi triste...e alegre...



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Filmes - Sugestões

Recentemente assisti a 4 filmes realmente bons, pelo menos no meu gosto... e comecei a saga Grey's Anatomy...que até agora está sendo divertida e interessante. Tirando o primero, os filmes são relativamente velhos, vocês já devem ter assistido ou ouvido falar sobre eles, mas se tiver na dúvida aqui estão minhas sugestões.

Assisti o tão esperado: As aventuras de Tintin



Quase perfeito! Só não foi tão perfeito porque aconteceu muita coisa tudo ao mesmo tempo. Parece que existia uma urgência de colocar tudo de uma vez só. Acho que com tanto filme que poderia ser apenas um e são dois Tintin poderia ter pego o mesmo embalo. Enfim, não deixe de assistir e no cinema! Ele merece ser assistido lá.

E as 3 sugestões de amigos: 



Lady Chattterley - 2006

Muito bom, uma fotografia excelente e que faz muito parte da história. Tipo o que se vê é o que a personagem está vendo pu passando a perceber. Achei isso demais. No começo do filme você a ficar entediada como a personagem e depois... O filme é baseado no livro de D. H. Lawrence - Lady Chatterley's Lover, mas não pense que você vai ter um retrato exato do livro. O filme trabalha mais o relacionamento dela com seu amante, por isso fiquei com muita vontade de ler o livro.


Breaking and entering - 2006

Encarei assistir o filme só pelos atores, gosto muito do Jude Law e da Julliete Binoche, mas não tinha grandes expectativas. No final o filme me surpreendeu com essa coisa de relacionamento, mentiras, problemas sociais e vida dos personagens.


Stepford Wives - 2004

Não é um filme que eu diria UAU você tem de assistir, porque nem eu tenho paciência com filmes assim, mas estou sempre me dando uma segunda chance de gostar e acabo me surpreendendo com as coisas que normalmente não gosto. Filme leve e com um conteúdo com bom, dei algumas risadas e não me arrependi. Em resumo bom desse filme seria, uma feminista que precisa de um equilíbrio hahaha. 


Bye!!

@roseguedes






sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal 9 - O chester de Natal


O chester de Natal

20 de dezembro de 2009
Silviano Santiago (*) - O Estadao de S.Paulo
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, poema VIII
A infância alicerçou a noite de Natal no território feminino da família. Por mais que a mamãe e as professoras se esforçassem por me convencer que o Natal era a festa do Menino Jesus e do Papai Noel, não me sentia incluído na noite e papai não se julgava à vontade para entregar a cada um, pessoalmente, os presentes escolhidos por ele e comprados com sua grana.
À mesa, mamãe era a dona do chester assado. Ao manobrar com rara felicidade o garfão e a faca afiada, destrinchava a ave rechonchuda como se fosse um açougueiro de plantão. Distribuía as partes nobres pelos vários pratos, demonstrando conhecimento das preferências individuais. Sabia até quem desdenhava a farofa incrementada do recheio, minha favorita. Ao lado do pinheiro iluminado, ela fazia questão de que a lembrança natalina passasse por suas mãos antes que o legítimo destinatário dela tomasse posse. Oferecido o presente, sapecava delicados beijinhos no agraciado.
Minhas duas tias por parte de pai eram solteironas e lhe faziam coro. Soltavam as exclamações de praxe e, com o movimento do pescoço e dos olhos, indicavam a pessoa que as provocavam - mamãe. Felicitavam o irmão mais velho por ter esposa tão carinhosa e prendada. Ele tinha tirado a sorte grande. Dos avôs, restava vovó, mãe dela, que ficava sentada na cadeira de balanço, alheia aos familiares e ao mundo. Apesar de entregue à doença de Alzheimer, também entrava na roda. Ao mais insignificante dos brindes levantados à mesa, os olhos das três mulheres não deixavam de enquadrá-la.
Podem imaginar a razão pela qual durante e depois da ceia de Natal eu reunia forças para dar apoio estratégico ao papai. Meu respaldo não se manifestava por atos. Só por palavras de agradecimento e de afeto, sussurradas no seu ouvido. Eu não recusava as coxas do chester, que me cabiam por gosto e por decisão materna. Seria grosseria pedir para trocá-las por outro pedaço da ave. Papai Noel não deveria perder a identidade ancestral, mas como entregar de volta às mãos paternas o presente oferecido pela mamãe? Não se justificava o desrespeito à função assenhoreada por ela. E mamãe muito me amava (disso não tenho dúvida).
Tanto mais me amava porque cheguei tarde à vida dos dois. Teriam formado o clássico casal sem filhos, e dele sido feliz exemplo, se o ginecologista da mamãe não tivesse batido as botas e ela não tivesse encontrado substituto à altura. Depois de ter acolhido a nova cliente na Clínica de Reprodução Humana e escutado as queixas da futura paciente, o Dr. Augusto Severo não só lhe enxugou as lágrimas com palavras de fé e esperança, como lhe garantiu o êxito do procedimento médico, se feito, é claro, sob sua responsabilidade.
Dizem que mamãe não esperou a hora do jantar para soltar a bomba. Tão logo papai cruzou o batente da porta do apartamento, ela saltou para os braços dele, conduzindo-o à sala de visitas. Passou-lhe detalhes e mais detalhes sobre a possibilidade do filho poder ser gerado por inseminação artificial. Palavra do novo ginecologista. A partir daquele momento, tudo dependeria da aquiescência do marido, e era por isso que tomara a liberdade de incluí-lo na próxima consulta ao Dr. Augusto.
No correr dos anos, arquivei na memória o que escutava e o que adivinhava no escutado. Não havia como esconder o sol com a peneira. Mamãe se sentia injuriada por não poder ter filho. Não aguentava mais os comentários da mãe, que lhe exigia um neto pelo menos. Não era fértil o sêmen do papai. Por haver paralelismo entre as lições que recebia na escola sobre sexualidade e as novas domésticas sobre minha concepção, eu estranhava a fecundação sem o sentimento do amor. Não é o êxtase celestial dos cônjuges que impregna o futuro bebê de felicidade? Eu era produto das manipulações do Dr. Augusto e como tal me sentia.
Bebê de proveta. A expressão era e ainda é chocante. De tal forma chocante, que os programas de televisão procuram suavizá-la, recobrindo-a com humor em sketches apimentados. Não dizem que rir é o melhor remédio? Para pai e filho não era.
Papai se sentia infeliz com a viravolta familiar criada pela esposa aos 38 anos de idade. Graças ao louvável know-how do Dr. Augusto, o famoso advogado criminalista se transformara num chefe de família, cujo pátrio poder tinha sido exposto à visitação pública dos inimigos. Enquanto o casal consegue manter o silêncio conivente, não se sabe a que cônjuge recai a culpa pela esterilidade. Do momento em que, na maternidade, a barriga da mãe explode e expulsa o bebê, resta pouca dúvida, e surgem outras dúvidas.
Teria sido eu procriado in vitro com o sêmen paterno? Dificilmente. Houve consulta e recurso a um banco de sêmen? Certamente. Qual é o nome do doador do sêmen fecundo? Era solteiro e hoje é casado? Já morreu? Sabe que eu existo?
Para evitar angústia maior, paro de desdobrar as dúvidas em perguntas. Vou direto ao que passou a inquietar-me do momento em que me julguei dono do próprio nariz. Como nenhum ser humano brota do nada, queria conhecer meu procriador.
Já perceberam que não fui menino de coragem. Tampouco fui adolescente atrevido. Durante as sucessivas ceias de Natal, quando éramos mais de três à mesa, minha indisciplina se manifestava pelo sussurro de palavras afetuosas no ouvido do papai. Eram de agradecimento aos vários presentes que mamãe me entregara. Na puberdade, poderia ter-me dado ao luxo da malcriadez ou dos comentários estapafúrdios. As tias solteironas compreenderiam meus atos de insubordinação, tanto mais porque vinham de onde vinham, e a vovó, bem, ela nem se daria conta do pirralho que lhe fazia concorrência em diabruras. Realmente, não sou capaz de atos claros, que carreiam significados precisos.
A adolescência sedimentou no território feminino da família a noite de Natal.
Ao atingir a maioridade, ganhei coragem e fiz a pergunta que não queria calar. Papai se fechou em copas. Mamãe virou um túmulo. Não havia porta no mistério familiar, a não ser a que se abria para a felicidade alheia. Vovó tem seu neto, as tias solteironas, seu sobrinho e mamãe, seu filho.