terça-feira, 20 de maio de 2014

A importância de ser gentil

A importância de ser gentil

Por George Saunders
(Tradução de Carlos Alberto Bárbaro)
Nesta semana, lançamos o novo livro de George Saunders no Brasil, Dez de dezembro. O volume de dez contos aborda os dramas e as delícias da classe média urbana, a relação entre pais e filhos, as pequenas imposturas que cometemos quando queremos agradar um desconhecido.
No ano passado, George Saunders foi convidado para discursar na formatura da turma de 2013 da Syracuse University. Seu discurso não falou apenas sobre o futuro profissional dos alunos ou os desafios que encontrariam. Saunders lembrou os recém-formados sobre uma coisa muito mais importante: as pessoas devem ser mais gentis umas com as outras, independente de seus objetivos. Leia a seguir o discurso completo de George Saunders.

* * *

Através dos tempos, estabeleceu-se um padrão para este tipo de discurso, a saber: algum velhote, já bem entrado em anos, que no curso de sua vida cometeu uma série de equívocos lamentáveis (este sou eu), oferece aconselhamento sincero a um grupo de jovens brilhantes e viris, cujos melhores anos de suas vidas estão por vir (estes são vocês).
Pretendo respeitar essa tradição.
Assim, se há algo útil que vocês podem obter de um velho, além de lhes pedir dinheiro emprestado, ou insistir para eles mostrarem algum dos seus antigos passos de “dança”, para fazê-los rir enquanto assistem, é perguntar a ele: “O que você lamenta em seu passado?” E eles lhes dirão. Em algumas ocasiões, como vocês devem saber, eles lhes dirão mesmo se ninguém tiver perguntado nada. Em outras ainda, mesmo que vocês tenham lhes pedido especificamente para não contarem nada, eles vão falar.
O que eu lamento, então? Ter sido pobre ocasionalmente? Não mesmo. Ter tido empregos terríveis, como “desconjuntador em um abatedouro”? (E nem me perguntem o que isso implica.) Não, não lamento por isso. Mergulhar pelado num rio em Sumatra, um pouco alterado, e ao olhar para cima divisar uns trezentos macacos sentados em um cano, fazendo cocô no rio, no rio em que eu estava nadando, com minha boca aberta, pelado? E cair mortalmente enfermo logo a seguir, continuando assim nos sete meses seguintes? Não muito. Será que me lamento pelas ocasionais humilhações? Como aquela vez em que, jogando hockey diante de um público enorme, que incluía essa garota de quem eu gostava imensamente, eu de algum modo consegui, enquanto caía e soltava um cacarejar estranhíssimo, marcar um gol contra e ao mesmo tempo lançar meu bastão em voo na direção do público, não acertando aquela garota por um triz? Não, nem isso eu lamento.
Mas eis algo que realmente lamento.
Quando eu estava no sétimo ano, uma garota nova entrou pra nossa turma. Para preservar os envolvidos, seu nome neste discurso de formatura será “Ellen”. Ellen era miúda, tímida. Usava aqueles óculos azuis em forma de gatinhos que, naquele tempo, só mulheres mais velhas usavam. Quando estava tensa, e isso era praticamente sempre, ela costumava colocar uma mecha de seu próprio cabelo na boca e passava a mastigar aquilo.
Bem, ela se mudou para a nossa escola e para o nosso bairro e na maior parte do tempo era ignorada, às vezes zoada (“É gostoso o seu cabelo?” — esse tipo de coisa.). Eu percebia que isso a magoava. Ainda consigo lembrar sua aparência depois que recebia esse tipo de ofensa: os olhos pra baixo, um pouco encurvada, como se, tendo sido justamente lembrada de seu lugar na ordem das coisas, ela tentasse, tanto quanto possível, desaparecer. Pouco depois, ela se afastava, o cacho de cabelos ainda em sua boca. Em sua casa, eu imaginava, depois da escola, sua mãe faria aquelas perguntas padrão: “Como foi o seu dia, meu bem?”, e ela diria, “Oh, bem.” E a mãe continuaria, “Fez algum amigo?”, e ela diria, “Claro, um monte.”
De vez em quando eu a via caminhando sozinha no quintal da frente da casa dela, como se com medo de sair.
E então — eles se mudaram. E é tudo. Nenhuma tragédia, nenhuma grande humilhação final.
Num dia ela estava lá, no outro, não estava.
Fim da história.
Então, por que lamento isso? Por que, passados quarenta e dois anos, continuo a lembrar disso? Em comparação à maioria dos outros garotos eu até que fui bem legal com ela. Jamais lhe disse uma palavra rude. Na verdade, algumas vezes eu até a defendi (timidamente).
E mesmo assim… Isso ainda me incomoda. Então, eis aqui algo que eu sei que é verdade, embora seja um pouco piegas, e eu não sei bem o que fazer com isto.
O que eu mais me arrependo em minha vida são dos fracassos em ser gentil.
Aqueles momentos em que outro ser humano fica ali, na minha frente, sofrendo, e eu reajo… sensatamente. Discretamente. Timidamente.
Ou, vendo as coisas pelo outro lado do telescópio: Quem, em sua vida, você lembra com mais carinho, da forma mais calorosa e irrestrita?
Os que foram mais gentis com vocês, aposto.
É meio cômodo, talvez, e por certo difícil de praticar, mas eu acho que como meta de vida há coisas bem piores do que tentar ser mais gentil.
Agora, a pergunta de um milhão: O que há de errado conosco? Por que não somos mais gentis?
Acho que é o seguinte:
Nascemos todos com uma porção de defeitos de fabricação, estes, de algum modo, provavelmente darwinianos. Que são os seguintes: (1) somos o centro do universo (isto é, nossa história pessoal é a mais importante e mais interessante das histórias, é, na verdade, a única história); (2) somos separados do universo (existimos, porém lá fora tem toda aquela tralha — cães e balanços, o estado de Nebraska e nuvens baixas e, você sabe, as outras pessoas); e (3) somos permanentes (a morte é um fato, tá certo — mas para vocês, não para mim).
Na verdade, não acreditamos de fato nessas coisas — intelectualmente, somos mais espertos que isso —, mas acreditamos nelas visceralmente, vivendo em conformidade a elas, que fazem com que coloquemos nossas próprias necessidades acima das necessidades dos outros, mesmo que o que a gente queira de verdade, de coração, seja sermos menos egoístas, mais atentos ao que está de fato se passando no momento presente, mais abertos e mais gentis.
Agora, a pergunta de dois milhões: Como podemos fazer isto? Como podemos nos tornar mais gentis, mais receptivos, menos egoístas, mais presentes, menos iludidos etc. etc.?
Pois é, boa pergunta.
Infelizmente, tenho apenas mais três minutos.
Então, direi apenas o seguinte: há várias maneiras. E vocês já sabem disso, porque em suas vidas houve períodos de Alta Gentileza e períodos de Baixa Gentileza, e vocês sabem o que os aproximou do primeiro e afastou do segundo. Educação é algo bom; deixarmo-nos absorver por uma obra de arte: bom; orar é bom; meditar é bom; uma conversa franca com um amigo querido; filiarmo-nos a certo tipo de tradição espiritual — reconhecendo que antes de nós houve um sem número de pessoas realmente inteligentes que se colocaram essas mesmas questões e deixaram as respostas para nós.
Porque, saibam, ser gentil é difícil — começa totalmente arco-íris e cachorrinhos fofos e se expande para incluir… bem, tudo.
Contamos com uma vantagem, porém: essa coisa de “tornar-se gentil” vem naturalmente com a idade. Pode ser apenas uma questão de cansaço: à medida em que envelhecemos, percebemos quão inútil é ser egoísta — quão ilógico, na verdade. Passamos a amar outras pessoas e somos portanto desprogramados em nossa própria centralidade. Levamos alguns tropeços na vida real e as pessoas vêm em nosso auxílio, nos defender, e aprendemos que não estamos sozinhos, e nem queremos estar. Vemos pessoas que nos são próximas e queridas ficarem pelo caminho, e somos gradualmente convencidos de que talvez também nós iremos sucumbir (algum dia, daqui a muito tempo). Muitos, ao irem envelhecendo, tornam-se menos egoístas e mais gentis. Eu acho que é assim mesmo. O grande poeta de Siracusa, Hayden Carruth, apontou, em um poema escrito pouco antes de morrer, que ele era, “agora, essencialmente Amor”.
Encerro com uma profecia, e algo que desejo de coração para vocês: à medida em que forem ficando mais velhos, seu ego irá diminuir e vocês irão crescer no amor. Vocês serão paulatinamente substituídos pelo amor. Se tiverem filhos, esse será um momento imenso em seu processo de autodiminuição. Vocês não darão realmente a mínima para o que aconteça com vocês, contanto que sejam eles os beneficiados. Esta é uma das razões pelas quais os pais de vocês estão tão orgulhosos e felizes hoje. Um dos sonhos mais queridos deles se tornou realidade: vocês conquistaram algo difícil e tangível que os fez crescer como pessoas e que irá tornar sua vida melhor, daqui para frente, para sempre.
E por falar nisto, parabéns!
Quando somos jovens, temos a urgência — compreensivelmente — de descobrir se temos o que é necessário. Teremos sucesso? Seremos capazes de construir uma vida viável para nós mesmos? Mas vocês — em particular, os desta geração — devem ter percebido uma certa característica cíclica da ambição. Vocês se dedicam durante o ciclo fundamental, na esperança de entrar em uma boa faculdade, e do mesmo modo se dedicam na faculdade, na esperança de obter um bom emprego, daí se dedicam no bom emprego na esperança de…
E é assim mesmo. Se vamos nos tornar mais gentis, isso implica nos levarmos a sério — como batalhadores, como realizadores, como sonhadores. Temos que fazer isso, ser o melhor de nós mesmos.
E mesmo assim, a realização não é garantida. “Ter sucesso”, seja lá o que isto signifique para vocês, é difícil, e a urgência em consegui-lo permanece em constante mutação (o sucesso é como uma montanha que continua crescendo à sua frente enquanto você a escala), e há também o risco muito provável de que “o sucesso” irá absorver toda a sua vida, deixando não atendidas as grandes questões.
Então, o conselho rápido de fim de discurso: Considerando que, segundo eu, suas vidas serão um processo gradual para se tornarem mais gentis e mais amorosos, não percam tempo. Abreviem o processo. Comecem imediatamente. Em cada um de nós habita uma confusão, uma doença de fato: o egoísmo. Mas também habita a cura. Então, sejam pacientes bons e proativos, e mesmo um tanto ansiosos, para seu próprio bem — busquem os mais eficazes remédios antiegoísmo, vigorosamente, pelo resto de sua vida.
Façam todo o resto, as coisas ambiciosas — viajem, enriqueçam, fiquem famosos, inovem, liderem, apaixonem-se, façam e percam fortunas, nadem pelados em rios de regiões selvagens (mas só depois de verificar se eles estão livres de caca de macaco) —, mas enquanto estiverem fazendo tudo isso, na medida do possível, vão desviando o passo rumo à gentileza. Façam aquelas coisas que os coloquem no rumo das grandes questões e evitem as que os diminuiriam e os tornariam banais. Aquela parte iluminada em vocês, que existe para além da personalidade — sua alma, se preferirem —, é tão brilhante e luminosa como qualquer outra que já tenha existido. Brilhante como a de Shakespeare, brilhante como a de Gandhi, brilhante como a de Madre Teresa de Calcutá. Tirem do caminho tudo o que os mantenha apartados desse lugar resplandecente e secreto. Acreditem em sua existência, passem a conhecer melhor esse lugar, alimentem-no, partilhem incansavelmente os seus frutos.
E algum dia, daqui a oitenta anos, quando vocês chegarem aos cem, e eu aos 134, e formos todos tão gentis e amorosos a ponto de sermos quase insuportáveis, telefonem para mim, para eu saber como tem sido a sua vida. E eu espero que vocês digam então: Tem sido tão maravilhosa.
Parabéns, Turma de 2013.
Desejo-lhes a maior felicidade, toda a sorte do mundo e um lindo verão.

* * *

DEZ DE DEZEMBRO
Sinopse: 
Os dez contos do livro formam um vasto painel da vida contemporânea, apresentando nossas neuroses, comédias de erros, relações amorosas e outros traços da realidade do século XXI. Com este livro que retoma a melhor tradição de contistas como John Cheever, Raymond Carver e David Foster Wallace, George Saunders, autor de romances, ensaios e outros volumes de contos, foi catapultado — merecidamente — para o centro da cena literária de seu país. Pudera: seus contos, escritos com virtuosismo linguístico e formal e mesmo assim intensamente divertidos, tocantes e humanos, são um olhar a partir do cotidiano de todos nós.

* * * * *

George Saunders nasceu no Texas em 1958. Estudou Escrita Criativa na Universidade de Syracuse, onde atualmente é professor, e trabalhou como redator técnico em uma empresa de engenharia ambiental. Autor de romances, coletâneas de contos e ensaios, é considerado uma das vozes mais originais da literatura dos Estados Unidos.

Fonte: http://www.blogdacompanhia.com.br/2014/05/a-importancia-de-ser-gentil/

receita



ingredientes 
um pedaço de mim
uma metade de você

modo de preparo 
me derramo na tua vida
sem dó de ser doce
sem reservar
e sem passar pela peneira

pego todas as tuas eiras
e beiras
misturo com as minhas
pego todas as maneiras 
de ser feliz o bastante
misturo com a vontade de ti
constante

e cuido pra que nem o tempo
nem o vento
levem migalha ou pedaço
nem tornem frios
o que hoje fazemos ávido

sem prever o fim
provo da parte de mim
que se sabe tua
não acrescento nada: o corpo já sabe onde fica
sua morada

na inteireza do nosso amor
hoje 
trago duas partes
e me faço 
meio sem medida
sem a tua metade



Receita texto publicado no blog: sobre silêncios e outras coisas... Isabella Coutinho

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Pecado + Amor= Vida


Uma pessoa muito coerente falando sobre uma mulher e acabando com filhos gerados antes do casamento disse: pecado gera pecado.

Só um canalha, hipócrita e que quer lavar as mãos de homens e mulheres diante de “males” que eles mesmos poderiam ter evitado. Mas até os males que esses canalhas levantam são questionáveis, porque a principal maldade eles mesmo que produzem e não percebem: a exclusão por falta de suposta perfeição.

Vergonha!

Se vocês acreditam que não cai uma folha da árvore se Deus não deixar, como poderia uma criança nascer contra a vontade Dele?! Uma criança?!

As consequências não são divinas e nem infernais, elas são humanas, diárias, doces, belas, difíceis, fáceis, justas, injustas e por ai vai... Mesmo que você faça tudo “certo” coisas ruins e boas acontecem, a sua vida é feita de momentos ruins, bons e os mais ou menos.

Agora, acorda! Você errou, erra e ainda vai errar. Sendo assim, qual é a dificuldade de olhar para o outro e para si mesmo com ternura?

Pecado + Pecado(falta de amor) = Pecado(vida sem amor)

Pecado + Amor = Vida (com muito amor)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

O sentido



















Parece-me que o sentido veio ao mundo antes de mim
Antes de nascer, de a minha consciência existir
O meu físico, o meu interior já era afetado
Nasci pura de mim e cheia de outros

Parece-me que viver é se encontrar em si mesmo
O outro se tornou em mim e eu me tornei nele

Parece-me que assim tudo se explica e se complica

Parece-me que tudo se resolve e envolve

ele
nele
ela
nela

eu
em mim

nós

em nós

terça-feira, 2 de abril de 2013

Folha em branco...


Folha em branco...
Como é difícil iniciar um texto
Várias tentativas
Vários backspaces

Não dá para copiar os outros
Plágio
Não dá para seguir conselhos de outros
A história é outra
Não dá para se inspirar neles
É perigoso o decalque

Mesmo que digam que tudo se copia
Nunca vi a vida se repetindo
Piora
Melhora
Parece, mas não é
É? Não parece

Então, escreverei:
Quase plagiando
Tentando seguir os conselhos
Percebendo o que me inspira
Sabendo que de alguma maneira inovarei
Sendo semelhante
Achando que sei
Sabendo que não sei
Contudo, que eu não deixe de escrever

sexta-feira, 1 de março de 2013

Meu inferno mais íntimo

(04/06/2012) 

Um jovem rabino, angustiado com o destino da sua alma, conversava com seu mestre, mais velho e mais sábio, em algum lugar do Leste Europeu entre os séculos 18 e 19. Pergunta o mais jovem: “O senhor não teme que quando morrer será indagado por Deus do porquê de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias? Eu sempre temo esse dia“.

O mestre teria respondido algo assim: “Quando eu morrer e estiver na presença de Deus, não temo que Ele me pergunte pela razão de não ter conseguido ser um Moisés ou um Elias, temo que Ele me pergunte pela razão de eu não ter conseguido ser eu mesmo“.

Trata-se de um dos milhares de contos hassídicos, contos esses que compõem a sabedoria do hassidismo, cultura mística judaica que nasce, “oficialmente”, com o Rabi Baal Shem Tov, que teria nascido por volta de 1700 na Polônia.

A palavra “hassidismo” é muito próxima do conceito de “Hesed”, piedade ou misericórdia, que descreve um dos traços do Altíssimo, Adonai (“Senhor”, termo usado para se referir a Deus no judaísmo), o Deus israelita (que, aliás, é o mesmo que “encarnou” em Jesus, para os cristãos). Hassídicos eram conhecidos como “bêbados de Deus”, enlouquecidos pela piedade divina (e pela vodca que bebiam em grandes quantidades para brindar a vida…) que escorre dos céus para aqueles que a veem.

São muitas as angústias de quem acredita haver um encontro com Deus após a morte. Mas ninguém precisa acreditar em Deus ou num encontro como esse para entender a força de uma narrativa como esta: o primeiro encontro, em nossa vida, que pode vir a ser terrível, é consigo mesmo. Claro que se Deus existe, isso assume dimensões abissais.

Para além do fato óbvio de que o conto fala do medo de não estarmos à altura da vontade de Deus, ele também fala do medo de não sermos seres morais e justos, como Moisés e Elias, exemplos de dois grandes “heróis” da Bíblia hebraica. Ser como Moisés e Elias significa termos um parâmetro moral exterior a nós mesmos que serviria como “régua”.

A resposta do sábio ancião ao jovem muda o eixo da indagação: Deus não está preocupado se você consegue seguir parâmetros morais exteriores, Deus está preocupado se você consegue ser você mesmo. Não se trata de pensar em bobagens do tipo “Deus quer que você seja feliz sendo você mesmo” como pensaria o “modo brega autoestima de ser”, essa praga contemporânea. Trata-se de dizer que ser você mesmo é muito mais difícil do que seguir padrões exteriores porque nosso “eu” ou nossa “alma” é nosso maior desafio.

Enfrentar-se a si mesmo, reconhecer suas mazelas, suas inseguranças e ainda assim assumir-se é atravessar um inferno de silêncio e solidão.

Ninguém pode fazer isso por você, é mais fácil copiar modelos heroicos, por isso o sábio diz que Deus não quer cópias de Moisés e Elias, mas pessoas que O enfrentem cara a cara sendo quem são. Podemos imaginar Deus perguntando a você se teve coragem de ser você mesmo nos piores momentos em que ser você mesmo seria aterrorizante. Aí está o cerne da “moral da história” neste conto.

Noutro conto, um justo que morre, chegando ao céu, ouve ruídos horrorosos vindo de uma sala fechada. Perguntando a Deus de onde vem aquele som ensurdecedor, Deus diz a ele que vá em frente e abra a porta do lugar de onde vem a gritaria. Pergunta o justo a Deus que lugar seria aquele. Deus responde: “O inferno”. Ao abrir a porta, o justo ouve o que aqueles infelizes gritavam: “Eu, eu, eu…”.

Ao contrário do que dizia o velho Sartre, o inferno não são os outros, mas sim nós mesmos. Numa época como a nossa, obcecada por essa bobagem chamada autoestima, ocupada em fazer todo mundo se achar lindo e maravilhoso, a tendência do inferno é ficar superlotado, cheio de mentirosos praticantes do “marketing do eu”.

Casas, escritórios, academias de ginásticas, igrejas, salas de aula, todos tomados pelo ruído ensurdecedor do inferno que habita cada um de nós. O escritor católico George Bernanos (século 20) dizia que o maior obstáculo à esperança é nossa própria alma. Quem ainda não sabe disso, não sabe de nada.

Luiz Felipe Pondé (jornal FSP )

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O meu canto


Canto...
Porque a vida é bonita
Porque transformo a tristeza em poesia
Porque reparto a alegria
Porque me declaro sem me sentir ridícula
Porque além de ouvir, alguém me sente

Meu canto é...
Uma risada escandalosa
Um grito incontido
Um abraço apertado
Um choro ardido
Um tímido passarinho

É tudo o que sou
Errado, certo, incompleto, esperto, lerdo, rápido, atrasado
Fora do tempo
Afinado, desafinado, semitonado
Agudo, grave
Fanho? Sim
Sem alma, a flor da pele
Distante, grudado
Garganta, diafragma 

É invasão
Bagunça
Perturbação!

Calma

Paz

Canto...
Porque quero deixar a vida bonita


by Rose Guedes - 30/01/2013

sábado, 27 de outubro de 2012

Conhecendo Mia Couto

Nunca tinha lido Mia Couto. O conhecia por amigos e algumas frases de twitter. Ah! Acho que passei por ele em algum momento da graduação, quando assisti o documentário: Língua – Vidas em Português. 

Sei que não posso dizer que agora o conheço apenas por ter lido um livro dele, porém posso dizer que estou apaixonada! E quando estamos apaixonados perdemos o juízo e acabamos achando o normal, o bonitinho e o comum uma “absurdeza” de maravilhoso. Só que dessa vez acho que me apaixonei por um autor incrível, acima da média. 

O livro lido foi: O fio das missangas. Um livro com 29 contos, recheado de fantasias, lindas histórias, belas imagens e palavras divertidas. 

Recomendo! E deixo uma frase twitável:
 “A missanga todos a vêem. Ninguém nota o fio que, em colar vistoso, vai compondo as missangas. Também assim é a voz do poeta: fio de silêncio costurando o tempo”.


@roseguedes

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Gustavo Lima e você


Uau, tanto tempo que não passo por aqui...Hoje o Matutando escolheu Gustavo Lima e você. Texto de um amigo que quando escreve sempre me leva a matutar. Espero que à você também!

Boa matutada!



Gustavo Lima e você

O Brasil é a sexta maior economia do mundo. Nós ultrapassamos o Reino Unido. Nosso PIB é de US$ 2,48 trilhões, enquanto o do Reino Unido é de US$ 2, 26 trilhões.

Algumas pessoas receberam essa notícia, no fim de 2011, com entusiasmo. Quando o banco alemão WestLB noticiou o ranking das maiores economias do mundo, muitos brasileiros abriram sorriso de orelha a orelha. Contudo, eu não. Recebi a notícia com desconfiança e lamento.

Na minha opinião, Weber acertou quando teorizou sobre a autonomia das esferas da realidade. Economia e política são esferas distintas e autônomas, e aqui está a razão do meu lamento. Enquanto a esfera econômica brasileira ascende, a política se desgasta e degrada sistematicamente.

O Brasil tem uma das piores distribuições de renda do mundo. Para mostrar a gravidade em detalhes, alguns dados: segundo o mais recente relatório sobre Desenvolvimento Humano divulgado pela ONU, o Brasil é o décimo pior entre os cento e vinte e seis países considerados para a realização do relatório. Nós temos a terceira pior distribuição de rendas da região latino americana e caribenha. Piores que nós, apenas a Bolívia e o Haiti.

É de corar as bochechas de qualquer pessoa de bom senso, afinal, estamos falando da sexta maior economia do mundo!

Distribuição de renda é problema político. De que adianta uma economia em ascensão e uma política desse nível? Poderia escrever sobre vários outros problemas políticos do Brasil, mas não considero necessário para o meu argumento, uma vez que a má distribuição de renda está intimamente ligada com a pobreza e a fome – e não há problemas políticos mais relevantes.

O Brasil atual enriquece, mas apenas o bolso dos que já eram ricos. A distribuição de renda brasileira é a denúncia de que o pobre continua pobre, quando não mais pobre do que era. O acesso das classes mais baixas à linhas de crédito, que permitem adesão de bens de consumo, é apenas uma cortina de fumaça para distrair a massa do real problema político brasileiro.

Mas essa cortina de fumaça não tem razões econômicas apenas. Há ainda outros que ajudam a mantê-la, para parecer que está tudo bem: Michel Teló, Gustavo Lima e tantos outros milhões de imbecis que cantam “me dá um tchu, me dá um tchá”. Nesse esquema idiota e idiotizante, tipo pão e circo, os brasileiros vão festejando sua própria miséria política e humana.

O que acontece com os brasileiros? O que aconteceu com aqueles que lutaram contra a ditadura militar? O que aconteceu com aqueles que lutaram pelo voto direto? Que tipo de apatia se abateu sobre esse povo que já derrubou sistemas políticos perversos? O Brasil tem um dos piores índices de corrupção política do mundo!

Jesus disse que as portas do inferno não prevaleceriam contra a igreja, mas só disse isso porque não conhecia a igreja evangélica brasileira. Se conhecesse, teria hesitado. Os evangélicos seguem emudecidos diante da injustiça social que testemunham. Em terras tupiniquins as portas o inferno prevaleceram em forma de silêncio, descaso e insensibilidade contra a igreja que se diz de Jesus.

Os evangélicos confundem as coisas, acham que quando a Bíblia diz que Deus criou todas as coisas, era sobre o Cachoeira que ela estava falando! Essa leitura literal da Bíblia sempre atrapalhando tudo...

O Brasil é uma vergonha política. E o nosso povo dá de ombros para isso, inventando alguma nova coreografia ridícula que envolve bunda e rebolado ... Nossa, nossa, assim você me mata. Nos mata.

Lidero, junto com mais alguns amigos, um pequeno grupo de jovens numa igreja evangélica chamada Betesda. Desde o começo do ano, os líderes desse grupo acharam relevante discutir política em nossas reuniões, pois além de ser ano eleitoral, é necessário dar início ao debate político entre jovens, ainda mais os que estão dentro de uma igreja. A ideia ganhou o nome de Política JB (Jovens Betesda). Reservamos um sábado por mês para esse programa. Desejávamos que o debate inflamasse o grupo e o colocasse em movimento político de engajamento social... Mas não aconteceu. Dos sessenta jovens que frequentam normalmente nossas reuniões semanais, menos de trinta aparecem no Politica JB, provavelmente por considerarem irrelevante discutir política, ainda mais dentro da igreja. O que é isso, senão um retrato fiel da mentalidade política brasileira?

Na América Latina, nosso país só ganha da Bolívia e do Haiti em justa distribuição de renda, e tem uma cambada de brasileiros descerebrados que acham que política não é importante!

Minha indignação é tanta, que já tive vontade de desistir algumas vezes. Mas graças aos meus bons amigos politizados continuo – alguns dentro do grupo de jovens que lidero, organizando doações de sangue; outros fora da igreja, lutando por movimentos de reforma política. Eles ainda me inflamam e me colocam em movimento.

Existe uma expectativa que até 2015 o Brasil se torne a quinta maior economia do mundo, ultrapassando a França – onde crianças de pais ricos e pobres frequentam as mesmas escolas, enquanto no Brasil, a educação pública está entre as piores do mundo...

Intitulei o texto de “Gustavo Lima e você” para que as pessoas lessem. Se eu colocasse algo como “política e economia no cenário brasileiro” meu e-mail iria direto para a lixeira da maioria. Desculpe se não é o seu caso, não quis te nivelar por baixo... Foi uma atitude desesperada.


Lucas Lujan

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Transformação

Todo dia é um recomeço
Todo dia é um renascimento
Não que tudo que é vivo nasce e morre no mesmo dia
Entretanto, tudo que é vivo muda a cada dia
E se muda passou ser outra coisa
Uma coisa que não era ontem

Ontem éramos calmos ou bravos
Hoje o que você é?
Não me diga que continua o mesmo!
Ou você insiste em ser o mesmo?
Tudo bem, você tem esse direito
Só não venha me dizer que é tudo assim
Você nem parou para perceber

Perceber é um mistério
Parar é proibido
Ai mora o perigo
De continuar sempre tendo
“aquela velha opinião formada sobre tudo”


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Família - O casamento de Rachel


Muita gente fala que relações familiares são complicadas. Eu não escolho essa palavra, por carregar um significado piegas que só é complicada por nossa causa, por exemplo, a gente que complica, era para ser tudo simples, mas a gente que não consegue se afastar dos problemas. Simples assim? Receio que não.

Uma possibilidade é, conforme a vida vai acontecendo e no mundo que nos foi exposto, e nesse caso cada um tem seu mundo, isso gera uma complexidade. Tá bom, palavras da mesma família, mas que se distanciam. Igual aos membros de uma mesma família.

Para explicar melhor - e se você já me entendeu me desculpe e continue lendo please - existem vários sabores de vinho, e cada um tem sua complexidade. E isto foi acontecendo conforme o processo de preparação que o vinho foi submetido, o tipo de uva, a época do ano, o tempo de engarrafamento e etc.

Então, as famílias não são complicadas e sim tem suas complexidades. Logo as pessoas não são complicadas, mas tem suas complexidades.

Enfim, escrevi tudo isso para dizer o quanto achei interessante o filme "O casamento de Rachel" ou "Rachel getting married”.








@roseguedes

sábado, 31 de dezembro de 2011

Montoeira


O ano acabou
Minha retrospectiva é triste e alegre
Igual a mim
Sou triste e alegre
Tenho uma queda pelo drama
Mas não largo a alegria

Na leveza do esforço amei quem deveria ser amado
Abri mão de quem não queria ser amado
Presenciei meu fracasso
Brindei minha vitória
Iniciei projetos eternos
Finalizei etapas

Palavras duras ainda ressoam nos meus ouvidos
Quero expulsa-las para não machucar mais
Quero mantê-las para aprender mais

Olhares iluminaram meus dias
E de novo as palavras, mas dessa vez doces, curaram
Toques, mesmo tão poucos, estão tatuados eternamente

Sons de crianças, adolescentes, famílias, músicas, amigos
Livros, medos, artes, erros, acertos, tentativas, doces e amores
Escutei todos os dias
Triste e alegre essa foi minha melodia

Fui fraca e logo rude
Fui forte e logo boa
Não lutei pelo o que acredito
Não segui o meu sonho
Calei-me, paralisei
Não o bastante inventei outro sonho
E uma nova maneira de acreditar no que acredito

E essa montoeira de coisa chamada 2011 foi boa?
Repito, foi triste...e alegre...



quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Filmes - Sugestões

Recentemente assisti a 4 filmes realmente bons, pelo menos no meu gosto... e comecei a saga Grey's Anatomy...que até agora está sendo divertida e interessante. Tirando o primero, os filmes são relativamente velhos, vocês já devem ter assistido ou ouvido falar sobre eles, mas se tiver na dúvida aqui estão minhas sugestões.

Assisti o tão esperado: As aventuras de Tintin



Quase perfeito! Só não foi tão perfeito porque aconteceu muita coisa tudo ao mesmo tempo. Parece que existia uma urgência de colocar tudo de uma vez só. Acho que com tanto filme que poderia ser apenas um e são dois Tintin poderia ter pego o mesmo embalo. Enfim, não deixe de assistir e no cinema! Ele merece ser assistido lá.

E as 3 sugestões de amigos: 



Lady Chattterley - 2006

Muito bom, uma fotografia excelente e que faz muito parte da história. Tipo o que se vê é o que a personagem está vendo pu passando a perceber. Achei isso demais. No começo do filme você a ficar entediada como a personagem e depois... O filme é baseado no livro de D. H. Lawrence - Lady Chatterley's Lover, mas não pense que você vai ter um retrato exato do livro. O filme trabalha mais o relacionamento dela com seu amante, por isso fiquei com muita vontade de ler o livro.


Breaking and entering - 2006

Encarei assistir o filme só pelos atores, gosto muito do Jude Law e da Julliete Binoche, mas não tinha grandes expectativas. No final o filme me surpreendeu com essa coisa de relacionamento, mentiras, problemas sociais e vida dos personagens.


Stepford Wives - 2004

Não é um filme que eu diria UAU você tem de assistir, porque nem eu tenho paciência com filmes assim, mas estou sempre me dando uma segunda chance de gostar e acabo me surpreendendo com as coisas que normalmente não gosto. Filme leve e com um conteúdo com bom, dei algumas risadas e não me arrependi. Em resumo bom desse filme seria, uma feminista que precisa de um equilíbrio hahaha. 


Bye!!

@roseguedes






sábado, 24 de dezembro de 2011

Natal 9 - O chester de Natal


O chester de Natal

20 de dezembro de 2009
Silviano Santiago (*) - O Estadao de S.Paulo
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter. Alberto Caeiro, O Guardador de Rebanhos, poema VIII
A infância alicerçou a noite de Natal no território feminino da família. Por mais que a mamãe e as professoras se esforçassem por me convencer que o Natal era a festa do Menino Jesus e do Papai Noel, não me sentia incluído na noite e papai não se julgava à vontade para entregar a cada um, pessoalmente, os presentes escolhidos por ele e comprados com sua grana.
À mesa, mamãe era a dona do chester assado. Ao manobrar com rara felicidade o garfão e a faca afiada, destrinchava a ave rechonchuda como se fosse um açougueiro de plantão. Distribuía as partes nobres pelos vários pratos, demonstrando conhecimento das preferências individuais. Sabia até quem desdenhava a farofa incrementada do recheio, minha favorita. Ao lado do pinheiro iluminado, ela fazia questão de que a lembrança natalina passasse por suas mãos antes que o legítimo destinatário dela tomasse posse. Oferecido o presente, sapecava delicados beijinhos no agraciado.
Minhas duas tias por parte de pai eram solteironas e lhe faziam coro. Soltavam as exclamações de praxe e, com o movimento do pescoço e dos olhos, indicavam a pessoa que as provocavam - mamãe. Felicitavam o irmão mais velho por ter esposa tão carinhosa e prendada. Ele tinha tirado a sorte grande. Dos avôs, restava vovó, mãe dela, que ficava sentada na cadeira de balanço, alheia aos familiares e ao mundo. Apesar de entregue à doença de Alzheimer, também entrava na roda. Ao mais insignificante dos brindes levantados à mesa, os olhos das três mulheres não deixavam de enquadrá-la.
Podem imaginar a razão pela qual durante e depois da ceia de Natal eu reunia forças para dar apoio estratégico ao papai. Meu respaldo não se manifestava por atos. Só por palavras de agradecimento e de afeto, sussurradas no seu ouvido. Eu não recusava as coxas do chester, que me cabiam por gosto e por decisão materna. Seria grosseria pedir para trocá-las por outro pedaço da ave. Papai Noel não deveria perder a identidade ancestral, mas como entregar de volta às mãos paternas o presente oferecido pela mamãe? Não se justificava o desrespeito à função assenhoreada por ela. E mamãe muito me amava (disso não tenho dúvida).
Tanto mais me amava porque cheguei tarde à vida dos dois. Teriam formado o clássico casal sem filhos, e dele sido feliz exemplo, se o ginecologista da mamãe não tivesse batido as botas e ela não tivesse encontrado substituto à altura. Depois de ter acolhido a nova cliente na Clínica de Reprodução Humana e escutado as queixas da futura paciente, o Dr. Augusto Severo não só lhe enxugou as lágrimas com palavras de fé e esperança, como lhe garantiu o êxito do procedimento médico, se feito, é claro, sob sua responsabilidade.
Dizem que mamãe não esperou a hora do jantar para soltar a bomba. Tão logo papai cruzou o batente da porta do apartamento, ela saltou para os braços dele, conduzindo-o à sala de visitas. Passou-lhe detalhes e mais detalhes sobre a possibilidade do filho poder ser gerado por inseminação artificial. Palavra do novo ginecologista. A partir daquele momento, tudo dependeria da aquiescência do marido, e era por isso que tomara a liberdade de incluí-lo na próxima consulta ao Dr. Augusto.
No correr dos anos, arquivei na memória o que escutava e o que adivinhava no escutado. Não havia como esconder o sol com a peneira. Mamãe se sentia injuriada por não poder ter filho. Não aguentava mais os comentários da mãe, que lhe exigia um neto pelo menos. Não era fértil o sêmen do papai. Por haver paralelismo entre as lições que recebia na escola sobre sexualidade e as novas domésticas sobre minha concepção, eu estranhava a fecundação sem o sentimento do amor. Não é o êxtase celestial dos cônjuges que impregna o futuro bebê de felicidade? Eu era produto das manipulações do Dr. Augusto e como tal me sentia.
Bebê de proveta. A expressão era e ainda é chocante. De tal forma chocante, que os programas de televisão procuram suavizá-la, recobrindo-a com humor em sketches apimentados. Não dizem que rir é o melhor remédio? Para pai e filho não era.
Papai se sentia infeliz com a viravolta familiar criada pela esposa aos 38 anos de idade. Graças ao louvável know-how do Dr. Augusto, o famoso advogado criminalista se transformara num chefe de família, cujo pátrio poder tinha sido exposto à visitação pública dos inimigos. Enquanto o casal consegue manter o silêncio conivente, não se sabe a que cônjuge recai a culpa pela esterilidade. Do momento em que, na maternidade, a barriga da mãe explode e expulsa o bebê, resta pouca dúvida, e surgem outras dúvidas.
Teria sido eu procriado in vitro com o sêmen paterno? Dificilmente. Houve consulta e recurso a um banco de sêmen? Certamente. Qual é o nome do doador do sêmen fecundo? Era solteiro e hoje é casado? Já morreu? Sabe que eu existo?
Para evitar angústia maior, paro de desdobrar as dúvidas em perguntas. Vou direto ao que passou a inquietar-me do momento em que me julguei dono do próprio nariz. Como nenhum ser humano brota do nada, queria conhecer meu procriador.
Já perceberam que não fui menino de coragem. Tampouco fui adolescente atrevido. Durante as sucessivas ceias de Natal, quando éramos mais de três à mesa, minha indisciplina se manifestava pelo sussurro de palavras afetuosas no ouvido do papai. Eram de agradecimento aos vários presentes que mamãe me entregara. Na puberdade, poderia ter-me dado ao luxo da malcriadez ou dos comentários estapafúrdios. As tias solteironas compreenderiam meus atos de insubordinação, tanto mais porque vinham de onde vinham, e a vovó, bem, ela nem se daria conta do pirralho que lhe fazia concorrência em diabruras. Realmente, não sou capaz de atos claros, que carreiam significados precisos.
A adolescência sedimentou no território feminino da família a noite de Natal.
Ao atingir a maioridade, ganhei coragem e fiz a pergunta que não queria calar. Papai se fechou em copas. Mamãe virou um túmulo. Não havia porta no mistério familiar, a não ser a que se abria para a felicidade alheia. Vovó tem seu neto, as tias solteironas, seu sobrinho e mamãe, seu filho. 

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Natal 8 - O presépio


O Presépio

20 de dezembro de 2009
Sérgio Sant?Anna (*) - O Estadao de S.Paulo
Esse homem vinha caminhando desde alguns quarteirões mais abaixo na rua das Laranjeiras, às dez e meia da manhã dessa sexta-feira de dezembro, para seguir prescrições médicas, a fim de reduzir o peso, gorduras no sangue e o estresse, e usava camiseta, bermuda e tênis. O seu caminhar traía um neófito na coisa, ele mostrando-se meio desalentado com o exercício físico, para, de repente, os seus passos se tornarem mais rápidos, ansiosos, como se tivesse pressa de chegar a algum lugar. No entanto, esse homem estava de férias, férias decididas pela própria empresa onde trabalhava, as Lojas Panamericanas, depois de uma tarde em que sentira um mal-estar, com pressão alta, suores, vertigem. E todos já vinham percebendo que ele andava meio alterado, oscilando entre o ensimesmado e o irritadiço, quando uma de suas funções como assistente de promoções e relações com os clientes era funcionar como para-choque nas reclamações dos fregueses, que ocorriam com frequência.
O médico do plano de saúde a que a empresa filiava seus funcionários dera a ele as prescrições típicas a homens sedentários, recomendando-lhe, além de um regime, que caminhasse com ritmo em algum lugar aprazível, e durante as caminhadas evitasse pensar em problemas. Como se isso fosse possível.
Um de seus problemas e preocupações maiores era a desconfiança. Ele desconfiava que as férias eram apenas um intervalo de passagem para a demissão, quando ele não pudesse alegar que fora posto na rua por problemas de saúde. Nem mesmo lhe deram uma licença médica, mas as férias, pura e simplesmente.
Ele desconfiava que aquela demissão já vinha sendo tramada pelo chefe de promoções e vendas, que, ele sabia, não gostava dele, com aquela ojeriza que os chefes podem ter pelos subordinados saidinhos demais, metidos a sabidos e com uma ambição que deixa os superiores prevenidos.
Ele vinha subindo a rua pelo lado direito, para não passar bem junto às portas das Panamericanas, pois sentia como uma derrota ser visto por alguns dos funcionários das Lojas, caminhando naqueles trajes em pleno período natalino, quando o seu departamento e todos deviam estar a mil por hora.
Certo que ele poderia escolher um outro local para andar, mas como alugara um apartamento barato na rua do Catete, a subida da rua das Laranjeiras até o Cosme Velho lhe parecia uma escolha natural para a caminhada.
Ou a verdade maior era que ele sentia uma compulsão de observar do outro lado da rua, oculto pelo tráfico e pelos pedestres, as Lojas Panamericanas?
Passando diante das Lojas, ele também nunca deixara de pensar naquilo que fora o seu maior sucesso, e estava ali à vista de todos, e naquele que fora o seu maior fracasso.
Às vezes não é preciso pensar muito para se ter boas ideias, pode acontecer até o contrário, como aconteceu com ele. Tratava-se de uma reunião, ainda no mês de outubro, para a escolha de uma ideia-chave, norteadora de todas as outras ideias, para a campanha do Natal de 2009, avaliando-se a necessidade de se recorrer para isso a uma agência de propaganda ou não.
Além dele mesmo, Rogério, estavam presentes o seu chefe no departamento de promoções e vendas, Deprov, e a secretária do superintendente.
Os três concordavam que o diferencial das Panamericanas era vender um pouco de tudo a preços mais acessíveis que os concorrentes, e que isso devia ser ressaltado.
Rogério estava fazendo risquinhos numa folha de papel, quando se surpreendeu dizendo, num tom de voz normal, até baixo, como se pensasse consigo mesmo:
- Não importa o valor da sua dádiva, mas o tamanho do seu amor.
Houve alguns instantes de silêncio, pela surpresa, até que a secretária da Superintendência falou, como que para certificar-se do que havia escutado:
- O que o senhor disse?
Rogério repetiu, agora com maior firmeza, porque tinha, nesse pequeno intervalo, convencido a si próprio de que sua frase era um achado:
- Não importa o valor da sua dádiva, mas o tamanho do seu amor.
- Bonito, isso - disse a secretária.
Quando se soluciona muito rapidamente uma questão, sempre parece que ficou faltando alguma coisa.
- Uma frase dessas não pode induzir os fregueses a comprar os produtos mais baratos? - disse o chefe do Deprov.
- É, pode ser. Precisamos pensar nisso - disse a secretária.
- Talvez algo mais discreto, mas eficaz - disse o chefe. - O que vocês acham dessa: Aqui você tem tudo para um Natal feliz?
- Acho boa - disse Rogério, diplomaticamente. - Mas com a frase A (ele evitou dizer minha), se for a escolhida, poderemos colocar junto com ela, na fachada da loja, os três reis magos adorando o Senhor na gruta de Belém e, como todos sabem, oferecendo-lhe ouro, incenso e mirra. No alto, a estrela guia.
O coração de Rogério batia, pois, de novo, uma ideia viera límpida à sua mente, como se primeiro surgissem as palavras e depois o pensamento. E ele deixou que isso continuasse a se desenrolar até o fim:
- As Panamericanas estarão levando uma mensagem a toda a cidade, reforçando o verdadeiro espírito de Natal, tão esquecido.
- Realmente pode ficar bonito - disse a secretária da Superintendência, que, como o chefe de departamento, vinha anotando tudo o que se dizia na reunião, e era arguta o bastante para saber que ali se travava, veladamente, uma disputa entre os dois homens. - E como pode vir a ser uma ideia norteadora de toda a campanha de Natal - ela prosseguiu - o senhor superintendente gostará, é claro, de dar a palavra final. Pensando no valor da frase do senhor Rogério e na objeção do senhor Xavier, quem sabe se possa chegar a uma frase que atenda a ambos os requisitos.
Temendo que o sucesso lhe fosse subtraído, o próprio Rogério apresentou uma alternativa:
- Um Natal do tamanho do seu amor.
- Bem - disse Xavier, embarcando no êxito possível dessa última frase que, de algum modo, ele ajudara a encontrar: - É essa frase mais curta e não induz os fregueses a compras muito baratas.
O Superintendente das Lojas Panamericanas no Rio de Janeiro não hesitou em escolher a terceira frase, Um Natal do tamanho do seu amor.
Sem que pudesse ser considerada uma derrota do chefe, que no entanto acendera um sinal de alerta e reconheceu a antipatia que sentia pelo outro, esse fora o grande triunfo de Rogério, que ali, caminhando, a cem metros das Lojas, do outro lado da rua, podia ver o outdoor com a frase e ilustração, o que lhe aumentava um pouco a autoestima e dava-lhe um trabalho bom e concreto para mostrar na busca de um novo emprego, se fosse o caso.
Mas ali, nas Panamericanas, como em todo lugar, não se podia descansar sobre as conquistas, e logo ele foi chamado, para, entre outras tarefas de rotina, participar da seleção de dois Papais Noéis que se revezariam à entrada das Lojas, durante os vinte dias que antecediam ao Natal.
Diante do seu êxito recente, ele ficara confiante demais no poder das suas ideias e, na reunião preparatória para aquela seleção, estando presentes ele, Rogério, o chefe do Deprov e um assistente do departamento de pessoal, ele retirou do bolso um papel em que anotara uma ideia na noite anterior e disse:
- Por que não contratamos como um dos Papais Noéis um homem de cor?
Fez-se um silêncio absoluto e o chefe do Deprov aprumou-se na cadeira e encarou Rogério com um olhar muito atento. Já o rapaz do Pessoal, um estudante de direito, olhava para um e para outro, também muito atento, mas sem dar nenhum sinal de que pretendia falar, pelo menos por enquanto. Finalmente o chefe disse, com uma voz absolutamente neutra:
- Com um homem de cor, o senhor quer dizer...
- Sim, um Papai Noel negro.
O chefe do Deprov pareceu animar-se e mostrou-se mais amável do que habitualmente ao falar com Rogério:
- O senhor poderia dar suas razões para essa sugestão?
Rogério notou essa amabilidade e procurou dentro de si mesmo a segurança de quando tivera a ideia, na noite anterior:
- Bem, mais de cinquenta por cento da população brasileira é no mínimo miscigenada. Não sei se há pesquisas a esse respeito, mas uma parte considerável dos fregueses das Panamericanas deve ter esse perfil. Não seria a hora de atrair esses consumidores ainda em maior número?
Como na reunião da frase, o chefe anotava tudo. E perguntou ao rapaz do pessoal o que ele pensava.
- Bom, não cabe a mim decidir - o jovem disse cautelosamente. - Só sei que entre as pessoas fichadas por nós e pelas agências de emprego para esse trabalho, salvo engano, não existe ninguém... de cor. E, ao que eu saiba, Papai Noel é um mito nórdico.
- Pois é - disse o chefe de departamento, sempre anotando, inclusive o que ele mesmo dizia - um bom velhinho branco, de barbas brancas, usando roupas vermelhas, distribuindo seus presentes num trenó puxado por renas no meio da neve branca. No mundo inteiro é assim, por que o senhor acha que devemos mudar isso logo aqui nas Panamericanas, senhor Rogério?
Agora ficava claro para Rogério que o outro viera lhe dando corda, com o intuito de comprometê-lo, mas lhe parecia que era tarde demais para simplesmente desistir, embora ele já desconfiasse que a ideia não era tão boa. O máximo que podia fazer era amenizar um pouco o impacto da sugestão.
- Bem, é apenas uma ideia, para ver o que os senhores pensam. Como no caso da campanha de Natal, propormos uma nova atitude a partir de nossa empresa. Já pensaram a quantidade de publicidade gratuita que poderemos obter com essa simples mudança, um Papai Noel negro? E o outro, branco, é claro - ele concluiu, lançando olhares para o estudante e o chefe, procurando um mínimo de cumplicidade. Uma cumplicidade que não veio.
- Senhor Rogério - disse o chefe do departamento, sempre anotando - Não sei se a direção da empresa está interessada nesse tipo de publicidade. Pessoalmente, não creio e não vou ficar em cima do muro: não gosto da ideia, por vários motivos. Mas vou me incumbir de levar a sua proposta, que anotei, à dona Hebe, secretária da Superintendência, que decidirá se deve levá-la ou não ao senhor superintendente.
A resposta que veio da secretária da Superintendência, já no dia seguinte, foi um não e uma ordem para que o assunto não voltasse a ser discutido.
Ele não foi mais chamado a participar do processo de seleção dos Papais Noéis e, significativamente, começaram a lhe passar apenas as tarefas que ele detestava: cuidar das reclamações e relações com os clientes. Qualquer pessoa que o observasse bem, notaria que ele estava nervoso e deprimido, culminando com aquele mal-estar.
A caminhada, em vez de desanuviar sua mente, o fazia repassar o seu sucesso e o insucesso, materializados agora a sua frente, do outro lado da rua, no outdoor e no som do sino tocado pelo Papai Noel que estava de plantão.
Apressando o passo, ele olhou em frente e foi então que reparou naquela cena, a mendiga recostada num muro, amamentando uma criança, o que causou nele repulsa, que veio juntamente com a raiva de que mendigos gerassem filhos.
Chegando mais perto, ele viu, com um fascínio misturado à aversão, que havia algo de falso e extravagante naquela cena, porque o garoto, com aparência de três anos de idade, era crescido demais para ser amamentado, e, na verdade, não havia vestígios de leite em sua boca, nem movimentos em sua garganta. E o seio que a mulher exibia era pequeno, firme e estava seco, e ela própria, que devia ter menos de trinta anos, não estava maltrapilha como seria de se esperar em sua condição. Devia ter ganhado de alguma jovem mulher, ou em algum albergue de assistência pública ou religiosa, aquele vestido com listras de várias cores, que ainda não havia desbotado de todo. Era um pouco justo e deixava as pernas da mulher visíveis até um pouco acima dos joelhos, e não era difícil imaginar que um ou outro homem se dispusesse a pagar para ficar com essa mulher, pois, apesar de algumas veias salientes, suas pernas não seriam desprezíveis para todos os homens, como certamente não o eram os seios. E, principalmente, nada estava sujo, já que eles se acomodavam sobre uma manta, e o short do menino, que não usava camisa, fora lavado havia pouco tempo, como se não fosse aceitável, para o cumprimento daquela cena, para a plausibilidade dos seus termos quase inadmissíveis, que o menino estivesse sujo.
O menino - que vai ver nem era dela - se mantinha naquela atitude viciosa, como se iniciado numa sensualidade prematura e ali representasse, num presépio em movimento, o seu papel ensaiado entre o obsceno e o sacrílego. E, de fato, a imagem de um presépio não era descabida nessa época natalina, quando as pessoas, em princípio, estariam mais vulneráveis aos sentimentos. Muitas pessoas poderiam cismar diante daquela cena, como Rogério, mas haveria também alguns a aceitá-la, pois nem todos eram tão céticos para ver naquilo uma fraude. Com as duas mãos, o menino acariciava aquele seio, em cujo bico às vezes roçava a boca, enquanto os seus olhos tanto podiam fixar o seio, como buscar no rosto da mulher sinais de aprovação e ainda passear esses olhos pelo entorno, que agora emoldurava, entre outras coisas e pessoas, Rogério.
Uns poucos segundos podiam abrigar muitos pensamentos e percepções simultâneos, e o olhar de Rogério também encarava a mulher bem nos olhos, e quando isso aconteceu a primeira vez, um pouco antes, ela já estava com os seus fixos nos dele e até mais do que isso: ela apresentava para ele uma expressão quase cínica, que significava, ou para ele parecia significar, entre outras coisas, que, por alguma força misteriosa da mente, ela sabia que tinha diante de si um homem que se sentia num momento especialmente frágil, ameaçado por todos os lados, com medo de ver naufragadas não apenas as suas ambições, mas também o que já conquistara, ainda que não fosse grande coisa. Um homem que talvez estivesse disposto a alguma transação com Deus, ou outra entidade, em que tivesse de despender uns trocados por grandes benefícios.
E quando ele passou bem próximo à mulher e ao menino, e ela recitou a sua fala marcada para aquele momento, não o fez com a humildade e convicção que seriam naturais, ou mesmo com a representação que torna o ato dos mendigos ainda mais lamentável. Ela desfiou o seu peito de uma forma desnaturalizada, com impassibilidade, como se tivesse um encenador crítico e entediado dentro de si, ou quem sabe nas imediações, com descaso pela audiência - embora não fossem poucos os que passavam e a desprezavam - talvez com a vaga esperança de que ali, no meio das pessoas, pudesse encontrar uma ou outra capaz de apreciar as implicações sutis de sua inflexão neutra:
- Cinco reais pelo amor da Virgem Maria e do menino Jesus, que aliviarão o peso do seu coração e pagarão a sua caridade com todas as riquezas e bênçãos no céu e na terra.
Nesse momento o menino revirara os olhos, como que para verificar o efeito causado em Rogério pelas palavras de sua mãe, e como se soubesse que elas se referiam também a ele próprio.
Rogério não pôde deixar de notar tanto a petulância no valor pedido como as palavras bem arranjadas como numa oração. E, ao que ele já apreendera visualmente, somaram-se essas palavras para formar uma cena completa, e então ele desconfiou, quase teve certeza, de que a mulher e o menino encarnavam ali na rua a Virgem e Jesus. Ou será que ele, Rogério, estaria se deixando levar por seu próprio arranjo natalino, visual e verbal? Do jeito que estava sua cabeça, nela tudo podia se abrigar.
Ele saberia retribuir com cinco reais ao espetáculo, não só, ou exatamente, por que percebera as particularidades da sua construção, mas sobretudo porque a mulher parecia dotada de poderes para decifrar que havia coisas que confrangiam demais o seu coração. Mas ele só trazia duas notas de dez e uma de dois reais e não se pede troco a mendigos, nem ele era um jogador ousado a ponto de apostar dez reais numa incerta graça divina, de que a mulher, apesar de tudo que havia de profano nela, seria a intermediária. E também já tinha um destino para aquele dinheiro.
Ele passou direto, mas a tempo de ouvir a voz da mulher, agora chiante como de uma serpente, que ela, de algum modo, conseguiu colocar bem próxima dos ouvidos dele:
- Posso fazer o bem e o mal. Se não quer Deus, que leve o diabo.
Ele acelerou bem o passo e percebeu que fugia, até por que passou da lanchonete onde pretendia tomar um suco e um café, e comer um sanduíche natural. E não querendo voltar atrás, deixou para parar numa padaria um pouco mais acima.
Ao fazer o pedido, no balcão desse estabelecimento, sentiu que estava ofegante e com o coração batendo mais forte, pelos passos desritmados e por causa das palavras da mulher.
Ele tinha um filho de onze anos, que morava com a mãe e a avó. Um menino que tinha problemas, um certo atraso, que se notava mais na dificuldade de aprendizado, e por isso frequentava uma escola especializada, que não custava barato. Ele gostaria de pensar que amava o menino como deveria, mas não conseguia enganar-se. E lhe doía perceber que o menino o admirava muito, ele não conseguia entender por quê, mas pensava que talvez fosse pelo atraso mesmo, que o impedia de ver o pai como era.
Ele sentia falta de uma companheira, uma namorada eventual que fosse, para confiar seus problemas, mas estava só desde a separação da mulher, havia alguns meses, e o lugar onde ele teria mais possibilidade de conhecer alguém que tivesse consideração com ele, seriam as Lojas Panamericancas, entre funcionárias menos graduadas, mas nas Lojas era impensável que funcionários se relacionassem nesse nível com funcionárias ou freguesas.
Ao deixar a padaria, depois de comer um pão na chapa - ali não havia sanduíches naturais - e tomar um suco e um café, ele tinha quinze reais no bolso. Parou numa banca e era significativo que, em vez de utilizar a nota de cinco para pagar o jornal, que ele comprava para examinar os classificados, ele utilizasse a nota de dez.
A praga da mulher ainda rondava a sua cabeça, e, entre os vários aspectos de sua vida que ele temia pudessem ser alvo de maus presságios, um dos maiores era o medo de empobrecimento - ele temia até a penúria - que atingiria em cheio o filho, a começar pela escola especial
Já ao sair de casa, ele planejava fazer um jogo na mega sena. Havia uma casa lotérica um pouco mais acima, na rua, e outra mais abaixo. Quando decidiu descer, ele já resolvera dar cinco reais à pedinte. A decisão veio da seguinte forma: primeiro dou os cinco reais à mulher e, depois, transformada a maldição em bons votos, passo no banco para retirar mais um pouco de dinheiro e fazer o meu jogo com sete ou oito dezenas.
Depois de ter descido um pouco mais a rua, ele procurava agora avistar a mulher e o menino na calçada, onde os deixara, e, não os avistando, sentiu aflição com a mexida nas peças do jogo, como se ela tornasse inviável ele mudar o seu destino. Por fim, acabou por avistá-los, só que a cena havia mudado. Agora o menino dormia sobre a manta, e a mulher, de perfil para Rogério, conversava com um homem bem moreno, de bermudão, sandálias havaianas, camiseta, os braços tatuados.
Rogério então parou por completo e ficou observando os dois e ela tocava no braço dele, com familiaridade. Talvez pelo fato de sentir-se observado, e com a cautela dos que costumam ser vigiados, o homem virou-se na direção de Rogério e olhou-o de cima a baixo, um átimo antes de a mulher fazer o mesmo. Rogério desconfiou que o sujeito já estivera ali por perto quando ele subira a rua, e devia ser o protetor, ou o explorador da mulher e do menino e, vai ver, o responsável, pelo menos em parte, pelo ato que eles encenavam na rua.
Rogério não estava nada bem, estava mais impressionável do que nunca e com presépios na cabeça, e agora via o seu próprio presépio e sua frase sobre o amor destacados nas Panamericanas, como um letreiro de cinema, e cogitou, pela maldição que antes lhe fora lançada, que aquele homem podia representar, naquele conjunto todo, uma espécie de anticristo, ou pai do anticristo, que seria o menino, e teve medo. Quis então atravessar a rua, mas o homem fez isso antes dele e sumiu no meio dos pedestres.
Só restava a Rogério seguir em frente e ele fez isso com passos decididos e olhos fixos na mulher, e logo estavam face a face. Viu que ela estampava de novo um sorriso cínico e movimentava os lábios meio preguiçosamente, pronunciando, baixo, uma oração indistinta, que Rogério pensou que podia ser tanto de súplica como de ameaça, numa língua que poderia não fazer sentido.
Parou então de olhar para ela e caminhou com passos ainda mais firmes. E, ao passar pela mulher, estendeu-lhe não uma e sim duas notas de cinco reais e seguiu em frente, com o coração pulando pela boca e sem olhar para trás, com a certeza de que fizera o que tinha de ser feito, representassem ela, o menino e o homem fosse lá o que fosse.